Menu

O primeiro torneio da vida da gente!

Alguns leitores já me conhecem de outros tempos, afinal já se vão 48 primaveras de jogos de todo o tipo, seja de mesa, cards, rpg e até disputa de palitinho, jogos são meu passatempo preferido.

Os meus preferidos são os eletrônicos, e isto desde antes do Atari, lá no telejogo (aquele dos dois palitinhos na tela da tv). Quando apareceu a oportunidade de ter minha própria sala de jogos isto parecia uma ótima ideia, afinal poderia (e deveria) passar o dia jogando e ainda ganharia como um trabalho.

No fim os impostos me mostraram que a vida não seria assim um mar de rosas, mas isto já é outra história.

De toda forma era uma época bem diferente, as revistas eram poucas e bastante amadoras, bem voltadas para um publico de menos de 15 anos. As importadas eram caríssimas, e tê-las na locadora era simbolo de status diante dos concorrentes.

Nem todo mundo ia lá para jogar, tinha alguns que chegavam cedo, na hora que a locadora abria, entravam e ficavam olhando as caixinhas de cada jogo, vendo as revistas, os quadros enormes, então chegavam outros e eles conversavam sobre os jogos, mostrando seus preferidos, quais jogaram ontem e verificando quantas moedas tinham em conjunto para saber se rolava pegar uma hora.

Eu sempre ligava os aparelhos deixando alguns jogos na tela de demonstração e isto já era tudo para alguns deles, parte deles acabavam indo embora sem nem jogar, era a atmosférica mágica que importava.

Para oferecer um diferencial aos clientes a locadora precisava ter alguém que entendesse a fundo de cada jogo e pudesse dar as dicas quando o jogador ficava trancado. Afinal como se pagava por hora, ninguém queria ficar 30 minutos travado em um mesmo ponto.

Por conta disto eu jogava tudo que eu gostava e muita coisa que eu não gostava. Para piorar a situação os “saves” eram coisa rara, muitas vezes quando a gente morria tinha de começar do zero.

Nada dessas molezinhas de vai andando e vai salvando, ou de voltar dez segundos atrás e refazer a curva que errou.

Desta forma eu não era tão bom assim em um único jogo, sempre tinha gente que jogava melhor que eu porque jogavam sempre o mesmo jogo, mas eu me saia bem no geral.

As locadoras eram responsáveis pelos torneios que eram realizados no próprio local, e em algumas o torneio era entre elas.

Agora torneio “mesmo”, de verdade, era coisa rara. Então quando anunciaram um na cidade de Porto Alegre eu naturalmente me interessei.

Diferente dos torneios atuais, na época o mais comum era que você tivesse de jogar vários jogos diferentes em sistemas eliminatórios. Então poderia jogar um jogo de corrida, se passasse pegava um de luta, depois futebol, era uma coisa bem estranha mesmo.

No entanto se eu não era “fera” em um jogo único, talvez tivesse chance em um torneio assim, e se por acaso eu ganhasse, isto ficaria muito bem para a locadora, já via a faixa pregada na frente da Spider Games “Silvio Teixeira – Campeão de Videogames Porto Alegre 1994”. Não tinha nada a perder, eu achava.

Chegado o dia eu decidi ir sozinho. Apesar de estar confiante preferi não fazer propaganda, pois se me saísse muito mal, ninguém precisaria saber.

O problema é que eu sou um cara esquecido, vivo perdendo coisas, esquecendo tudo. Não me esqueço da cabeça porque está grudada. Só me dei conta que estava sem meus óculos quando entrei no ônibus ainda meio dormindo.

Tenho uma miopia de 2,5 graus, nada que me impeça de andar por ai no dia a dia, mas já cumprimentei gente que não conhecia por conta disso.

Ao chegar lá, a primeira impressão foi de que todas as escolas da cidade soltaram os alunos ao mesmo tempo no mesmo lugar.

Tudo bem que não era nada se comparada as feiras de games atuais mas para o ano de 94 onde ninguém esperava muita gente, já que os consoles ainda estavam engatinhando e os jogos era totalmente taxados como coisa de criança, então ver aquela gente toda foi realmente surpreendente.

Dei uma volta pelo ambiente para reconhecer o local e tentar descobrir alguma pista de quais jogos seriam usados, no entanto a área do torneio estava fechada, e nas demais “televisões” os jogos eram bem aleatórios.

Não havia muito a fazer, nada de promoters, de patrocinadores evidentes, nada de estandes de nada, apenas a galera conversando, trocando cartas de Magic e Spellfire e alguns poucos equipamentos ligados, disputados a unha pelos presentes.

Tentei ver se encontrava algum conhecido e ficava “espremendo” os olhos para identificar os que estavam mais ao longe, tive a impressão de conhecer alguns diversas vezes mas sempre que eu chegava perto descobria que não era a pessoa que eu achava.

De toda maneira não houve tempo para muito passeio, o torneio começava cedo e lá estava eu assinando o livro dos participantes. Na primeira rodada jogaríamos alguma coisa do Mega Drive, ninguém sabia de antemão o que seria.

Quando os televisores ligaram simultaneamente (acho que estavam todos em um único disjuntor) um jogo qualquer aparece para minha total surpresa: que jogo é esse?

Era um que eu não tinha na locadora e que eu sequer conhecia na época, Arrow Flash. E para ajudar o jogo era apenas para um jogador, dessa forma os piores em termos de pontuação seriam eliminados.

Pensei em espiar alguém jogando para ter uma ideia mas para minha alegria eu estava na primeira rodada, junto com mais umas 13 pessoas. O jogo era bem simples, estilo atire em tudo que se mexer, se desvie de tudo que quiser tocar em você e pegue os power up que aparecerem para ficar mais forte.

Comecei até que bem mas com muitos power ups e muitos inimigos na tela, em poucos minutos não dava para distinguir direito o que era uma coisa e o que era outra.

A distancia que ficávamos até a televisão era pequena, mesmo porque os controles eram com fio, mas para um míope isto já é o suficiente para atrapalhar. Na tentativa de controlar meu minúsculo bonequinho levava o controle para frente, para cima da minha cabeça, para o lado, arrastava os pés para um lado e para o outro.

Não podia cair na primeira rodada. Levou um bom tempo para perder minha primeira vida, mas depois perdi a segunda em poucos segundos, e a terceira só não acabou com o jogo porque tinha um power up de vida extra.

Minha morte foi causada pelo meu olho grande, fui pegar um bônus que nem sabia do que era e acabei abraçando uma nave inimiga. Rapidamente olhei para o lado e vi que tinha muita gente ainda jogando, o que não era nada bom.

Tive uma vontade bem grande de levantar e me fazer de louco passando pela frente dos demais jogadores, a fim de que eles perdessem a concentração e/ou visão, mas sabia que isto me desclassificaria também.

arrow

Terminada a rodada, longos minutos para sair o resultado, para uma nova surpresa eu tinha me classificado. Se não em último em um dos últimos, mas neste momento só o que importava era ir adiante pois a outra rodada seria de outro jogo e eu poderia ter um melhor desempenho. Mas deve ter sido em último.

Houve uma segunda rodada onde eu não participei e que era um jogo diferente, isto foi justo pois quem estava olhando antes não seria favorecido. Era um outro jogo desconhecido também, com legendas tudo em japonês mas seguia o estilo de “navinha”.

O meu segundo round ia começar e seria no Super Nes. Fiquei torcendo que fosse um difícil dos que eu me saia bem como Battletoads, Indiana Jones ou um de Star Wars.

Naturalmente as coisas nunca são o que a gente imagina e quando apareceu a cara do Nigel Mansell na tela eu sabia que ia ser tenso. Eu gostava bastante deste jogo apesar de que me dava melhor no Mônaco GP, mas já tinha participado de uns pegas com a locadora do meu concorrente neste jogo e me garantia.

Além disso este era um jogo onde a miopia não atrapalharia muito, eu conhecia as pistas de cor e não tinha outros corredores para atrapalhar, já que era no estilo de tempo de melhor volta. Para me ajudar mais ainda, o circuito escolhido era o da Africa do Sul, Kyalami.

Só valia o tempo da primeira volta, quando o carro ainda sai frio e nisto também tive vantagem pois eu tinha a manha de deixar a aceleração em um ponto certo onde os pneus não cantavam mas tinha o atrito certo.

Não houve qualquer surpresa desta vez, apesar de não ser divulgado a classificação tenho certeza que fiz um dos melhores tempos, já que no grupo que eu estava eu terminei a corrida bem antes dos meus adversários (cada um correndo a sua própria corrida claro).

nigel
E lá fui eu para a terceira fase com o peito mais inchado que pombo em praça repleta de velhinhos. Estava torcendo que a próxima rodada não fosse Mortal, Street ou Killer Instinct pois estes eram jogos para os “viciadinhos”.

Eu até sabia como dar todos os golpes e especiais, mas não era rápido como os feras dos jogos de luta. Diferente do Arrow onde eu não jogava bem mas ninguém jogava bem também, estes jogos de luta todo mundo é fera.

Desta vez haveria outra diferença pois informaram que o próximo jogo seria em modo versus, ou seja, um contra o outro e poderia bem ser um Street Fighter da vida. A sorte no entanto estava do meu lado mais uma vez e para minha alegria o jogo era International Super Star Soccer (De Luxe).

Um dos que eu mais gostava e que jogava bem, ainda que não fosse o melhor de todos, mas só precisava ganhar do meu adversário para ir adiante.

futebol

Meu oponente era um baixinho, quase metade do meu tamanho e um terço da minha idade, se eu perdesse ficaria com vergonha de ter sido socado por alguém que fugiu do jardim da infância para participar do torneio. Ainda restavam no torneio 8 pessoas, 4 duplas jogando.

O jogo começa e eu não consigo evitar de puxar a cadeira mais para perto da televisão. No primeiro lance que vou para o ataque estou com meio corpo inclinado para frente, enquanto Denilson (vi no crachá dele) estava impassível na cadeira com os pés sem tocar o chão.

Em determinado momento meu controle está quase em cima do meu adversário, sempre tive dificuldade para manter as mãos paradas quando jogo.

Para nossa alegria, alguns poucos minutos após ter iniciado faltou luz geral, e se no meu jogo ainda estava 0x0 em alguns já havia acontecido gols e isto era algo que não estava previsto, afinal o amadorismo ainda reinava.

Foi ai que a porca torceu o rabo pois um gordinho invocado alegava que quando faltou luz ele tinha chutado para o gol já sem goleiro e queria que valesse seu gol. Seu adversário já começava a berrar e parecia que o acerto seria na base do tapa.

Na televisão da ponta um outro jogador do tipo mal encarado, no estilo daqueles que se a gente vê na rua já coloca a mão na carteira, xingava a plenos pulmões o único responsável por controlar os jogos do momento, não sei exatamente o que ele queria, mas ele queria muito.

Se não bastasse ele tinha uma tropa de “manos” de braços cruzados, com cara de quadrilha e achei que aquilo não ia terminar bem.

Apenas com a luz da rua entrando fracamente pelas altas janelas, e com a discussão cada vez mais acalorada, os organizadores devem ter receado algum vandalismo ou furto já que parte dos jogos ficavam acessíveis. Foi quando vi de canto de olho uma movimentação na rua, que mesmo espremendo os olhos não consegui identificar.

Eu me fiz de louco e perguntei se poderia ir ao banheiro já que não tinha luz. Atucanados com as discussões que ficavam mais acaloradas nem deram bola para mim quando levantei e fui espiar o que rolava.

Da janela, consegui ver que 2 PMs (policia militar) desciam de um camburão onde havia mais dois no banco de trás.

Não que eu tenha rabo preso, mas achei que era uma boa hora para sair de fininho, voltei rapidão para pegar minhas coisas que estavam na cadeira que jogava e ainda dei o toque para o Denílson:
– Neguinho, vamo vazá que o bagulho vai ficar islâmico por aqui!

Em coisa de quinze segundos estávamos saindo, no mesmo momento em que os brigadianos entraram, cheguei a pensar que eles poderiam nos parar, mas estavam de olho fixo no organizador do torneio que os havia chamado.

Mais alguns momentos e vimos que o cassetete começou a cantar. Era 94, esse negócio de não pode bater em menor é coisa mais recente.

A gritaria lá de dentro foi o estímulo que precisávamos para botar perna no mundo. Só paramos quando dobramos a terceira esquina e não ouvíamos mais nada do furdunço.

Conversando com Denílson contei para ele que eu tinha uma locadora e o convidei para ir lá quando pudesse, afinal tínhamos que descobrir quem iria passar adiante, para as semifinais fosse lá o jogo que fosse.

Uma coca-cola dividida foi a despedida do meu novo amigo-adversário.

No dia seguinte algumas pequenas manchetes davam conta da desordem que algumas “crianças” causaram levando a polícia a encaminhar “gentilmente” alguns menores infratores até a delegacia para a vergonha das mães que certamente proibiriam que eles voltasse a jogar por algum tempo.

O torneio não terminou mas ficou a história para a memória, e no sábado posterior estava eu contando pela centésima vez o que tinha rolado quando ele chegou! Denílson aceitou o convite e aparecera para nossa partida afinal.

Era a hora da verdade! 🙂

Live Gaming